Cortar o Tempo em Fatias
"Quem teve a idéia de cortar o tempo em fatias,
a que se deu o nome de ano,
foi um indivíduo genial.
Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão.
Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos.
Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui pra diante vai ser diferente."
Carlos Drummond de Andrade
Foi mesmo um indivíduo genial, o tal que teve a idéia de cortar o tempo em fatias.
Pergunto-me, qual será a magia que faz com que acreditemos que, no momento em que o relógio nos mostre que já é um ano novo, acreditemos mais em nossos sonhos, que ainda são os mesmos do ano que acabou há alguns instantes... qual a magia que nos permite acreditar que, como por milagre, os nossos problemas vão desaparecer, ou se tornar menores com a chegada do novo ano?
O que nos faz pensar, que o ano novo vai nos trazer tudo o que o velho ano não nos trouxe?
Quando o relógio marca 00:00 noite, ainda somos as mesmas pessoas, com sonhos um pouco diferentes, talvez. Há aqueles que abandonam sonhos, por acreditar que se até naquele mágico momento das doze badaladas no relógio, eles não se realizaram, é porque nunca mais irão se realizar, então se veem na obrigação de trocar de sonhos.
É engraçado pensar que com a chegada de um novo período em nossas vidas, um novo dia na verdade, que só tem de diferente o numero do ano no calendário, possamos crer piamente que tudo de bom vai acontecer nesse novo período.
Que nossos sonhos serão realizados.
Nossos desejos serão atendidos pelo tão grandioso Deus que vê, ouve e só realiza no tempo certo, e que esse “tempo certo” é o “ano novo”.
Acreditamos que velhas inimizades serão deixadas pra trás.
Que novos amigos serão conquistados.
Que enfim, com as nossas esperanças renovadas, faremos tudo de modo diferente e melhor.
Uma comparação semelhante pode ser feita, ao considerarmos uma criança com um caderno que está chegando ao fim, e que vê na perspectiva de um novo caderno, branco, limpo, lindo, a chance de melhorar a letra, tornar-se mais caprichosa, essa criança deposita no caderno sonhos que ela poderia, talvez, ter realizado ali mesmo, no caderno “velho”.
Um caderno que, na verdade, não está velho, ele só está usado. Assim como o caderno novo vai estar quando estiver chegando ao fim.
Mas a criança não pensa nessas coisas, ela apenas pensa que o novo caderno é o segredo mágico para as transformações que ela anseia.
Ela não percebe, no entanto, que o segredo para as transformações não é chance do recomeço, e sim a vontade de fazer diferente, coisas que já se fez muito errado!
Mas a idéia de cortar o tempo em fatias, faz com que tenhamos as esperanças renovadas, e isso nos impulsiona a fazer tudo de maneira diferente.
A grande magia do ano novo é aquela que cada um de nós incute em nós mesmos.
É que temos a mania de achar que a felicidade está no novo ano, no novo caderno, na nova escola, no novo endereço... não percebemos que a felicidade tem que estar em nós mesmos, onde quer que vamos, o que quer que façamos.
A felicidade não é uma estação na qual chegaremos,
e sim uma forma de viajar!
Comentários